Uma vez mais com estas greves nas prisões quem sofre somos nós.

10 dias de greve, só saímos 1 hora de manha e outra á tarde. 24 e 25 de Dezembro com greves sem visitas, sem lavandaria, sem entrada de comida, nem roupa. Isto é um sem viver. Maltrato psicológico. Vamos ao refeitório em fila indiana e ainda com o comer na boca nos manda para a cela, asfixiamos (?).

24 de Dezembro estamos em greve, o jantar batata dura com uma posta de bacalhau como a palma da mão, ficamos com fome, é uma tristeza o que vivemos aqui e o que passamos, só tristeza, choros, fome, muitas regras demasiadas. Fazem o que querem com nós. Nós aqui não temos voz de voto.

Quem está atrás das grades é quem sabe o sofrimento que passamos e as pessoas que nos seguem na rua, sabem o que se passa aqui com as presas.

Há tanta gente presa, só entram e saídas nenhuma ou nenhuma. Já não há celas vazias para tantas presas, estamos a ficar dentro de uma lata de sardinhas, que só entram e não saímos, nem nos vamos poder mexer de tantas presas que somos.

Aqui só dor, lágrimas, corações partidos.

Não há atividades para uma pessoa desabafar e libertar um pouco a nossa mente.

Aqui não há nada para reabilitações. Nós aqui somos nós, só nós e uma realidade que não a nossa. Temos de lidar com isto tudo, aqui sofre-se muito.

Estamos mais tristes que nunca porque na época natalícia a prisão está em greve e nós estamos na cela fechadas, só temos uma hora de manha e uma para a tarde, o resto estamos fechadas nas celas com tanto frio que faz aquecimento nas celas.

Todas húmidas, solidão, tristeza, celas frias ferrugentas, portas velhas, quatro muros á nossa volta, só vemos o céu quadrado, noites frias, dor, revolta, mágoas.

A comida não presta, no almoço arroz cru, no jantar arroz mal feito. Só se come arroz todos os dias. É para as vezes que temos massa ou batata. E fome passamos. Isto é uma tristeza sem fim.

Quero mandar desde aqui um grande beijinho para meu marido que está na prisão de Paços de Ferreira.

UM GRANDE ABRAÇO PARA VOZES DE DENTRO. Obrigada por estarem ai connosco.

Força para todas presas e presos. Isto é uma passagem!

FORÇA

About Vozes de Dentro

Somos um grupo de pessoas presas, presos e pessoas que do outro lado dos muros acompanham e participam, de diferentes formas, nas lutas das pessoas reclusas e das suas famílias. As pessoas privadas de liberdade e especialmente as pobres, racializadas, mulheres, transgéneros e crianças enfrentam condições desumanas, violência física e psicológica nas prisões. As histórias destas pessoas são altamente invisibilizadas, e, por isso, expostas a constantes violações dos seus direitos fundamentais (1). Em particular, Portugal é dos países europeus onde mais morrem reclusa/os (2) e as prisões portuguesas têm sido por diversas vezes alvo de críticas do Conselho da Europa, nomeadamente do Comité Contra a Tortura. Conjuntamente, encontra-se entre os países da Europa onde se condena mais a penas de prisão, por períodos mais longos e onde a sobrelotação é uma realidade. Os índices de encarceramento são altos especialmente entre as mulheres, também condenadas a penas maiores, e não existem dados oficiais sobre o número de pessoas transgénero, bem como sobre a pertença étnico-racial (1, 3). Testemunhos de reclusas e reclusos e seus familiares indicam o frequente recurso a fármacos sedativos, anti psicóticos e anti convulsivos sem uma conexão clara com a necessidade clínica dos próprios fármacos, mas mais claramente em coerência com a atitude repressiva do sistema prisional (4). A maioria dos estabelecimentos prisionais caracterizam-se por graves problemas nas infraestruturas, péssima alimentação, falta de acesso a bens e produtos essenciais. Os cuidados de saúde são também precários e deficitários, com a maioria de profissionais de saúde subcontratada. A atividade laboral remunerada é parca e traduz-se, maioritariamente, na exploração e as ofertas formativas são poucas. Isto, aliado à baixa aplicação de medidas de flexibilização de penas, ao inexistente apoio para a reinserção social, ao isolamento social a que ficam sujeitas as pessoas presas com severas limitações de contato com as suas famílias e comunidades e os percursos prévios de institucionalização que muitas viveram previamente à prisão, configura os ciclos de pobreza-exclusão-institucionalização-violência (5). Na prisão as discriminações, violências e a exploração persistem e são exacerbadas remetendo-as para invisibilidade, abandono social e marginalização. O objetivo deste grupo é de visibilizar a realidade obscurecida das prisões e pensar coletivamente possíveis ações de apoio para quem está dentro. View all posts by Vozes de Dentro

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