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A lei da Guarda Prisional

Um silêncio ensurdecedor rodeia o fim da greve dos guardas do Estabelecimento Prisional do Linhó. A ausência de posicionamento por parte de entidades de defesa dos direitos dos reclusos e dos direitos humanos é a que mais se nota, mas o assunto concerne-nos a todos.

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Uma vez mais com estas greves nas prisões quem sofre somos nós.

10 dias de greve, só saímos 1 hora de manha e outra á tarde. 24 e 25 de Dezembro com greves sem visitas, sem lavandaria, sem entrada de comida, nem roupa. Isto é um sem viver. Maltrato psicológico. Vamos ao refeitório em fila indiana e ainda com o comer na boca nos manda para a cela, asfixiamos (?).

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“A Prisão criou-nos”. Carta de companheiro preso num centro de detenção para imigrantes em Portugal

A prisão criou-nos.

Original english version below

O nosso trauma só é tão palpável quando o conseguimos comparar com o dos nossos contemporâneos. Quando estamos rodeados de sofrimento, a nossa relação com ele muda e o nosso limiar para a dor aprofunda-se. A submissão à autoridade, obtida pelo medo, sempre esteve na linha da frente desta guerra espiritual, onde a principal munição é a delegação da vontade imposta pela autoridade.

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Mais uma morte no Linhó! As consequências da greve de guardas prisionais

No passado dia 21 de maio de 2025, um jovem de 25 anos foi encontrado enforcado na sua cela no Estabelecimento Prisional do Linhó. Duas mortes em dois meses ocorridas durante o período da greve de guardas prisionais. Como tantas vezes acontece nestes períodos, aumentam as mortes, a violência e a tortura sobre as pessoas presas.
Antes de mais gostaríamos de demonstrar toda a nossa solidariedade e apoio com familiares e amigos dos dois jovens mortos na prisão em Linhó nos últimos dois meses.

Não esqueceremos. Não nos calaremos.
Nem mais uma morte na prisão!

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A greve de guardas prisionais no Estabelecimento Prisional do Linhó, que se prolonga desde 6 de dezembro de 2024, aprofundou o inferno do buraco cavernoso, aumentando o risco de vida de quem está encarcerado nesta prisão. Tal como revelam as duas mortes que ocorreram nos últimos dois meses: A primeira, a 7 de março de 2025, quando Gabriel Sousa, de 28 anos, foi encontrado morto na cela. A segunda, a 21 de maio, envolveu um jovem de 25 anos, encontrado enforcado.


Como tantas outras greves de guardas prisionais — e como se vive, desde Abril também em Tires — esta é feita à custa do corpo e da vida das pessoas presas. Em nome de interesses corporativos, reforça-se o castigo, o isolamento e a violência institucional. Faltam recursos básicos, a água, intermitentemente cortada e fornecida à míngua; o fecho prolongado nas celas sobrelotadas é regra; a comida é insuficiente e intragável; o acesso a cuidados de saúde é praticamente inexistente ou indigno; contenção através da intoxicação medicamentosa; os espancamentos por parte de guardas prisionais, o aumento da violência e as torturas institucionais. E somam-se ao isolamento atroz: visitas canceladas ou restringidas, barreiras ao envio de bens essenciais e suspensão de atividades educativas, culturais e laborais. Estas são parte das denúncias que nos chegam de dentro por vozes de pessoas presas no Linhó (testemunho abaixo), de familiares, de advogades.

É importante ressaltar que a superdosagem de medicação, o incentivo por parte dos guardas para que as pessoas se suicidem e o isolamento extremo são práticas comuns nas prisões. Apesar da existência de greves, o sistema mantém-se inalterado, reproduzindo regras que castigam em vez de proteger. Mesmo durante as greves, os castigos continuam. É também importante lembrar que há pessoas presas há anos, meses ou dias, muitas das quais desenvolvem patologias graves. Algumas estão sinalizadas, mas os guardas prisionais nada fazem — ocultam, agridem. O tráfico de drogas mantém-se ativo, mesmo durante as greves. As pessoas presas são submetidas a um tratamento desumano, com agressões físicas e psicológicas constantes. A morte deste jovem, como a de tantas outras, é um homicídio grave sustentado por um Estado que investe milhões num sistema que mata. A prisão é um sistema fechado, sem justiça, mantida com o dinheiro dos contribuintes, enquanto as famílias de pessoas presas são extorquidas com pagamentos ligados ao tráfico e aos carregamentos quinzenais.

Esta suposta reivindicação de direitos por parte de guardas prisionais não é senão uma chantagem exercida através do reforço da tortura quotidiana de pessoas presas. Sabemos que a lógica dominante entre o corpo de guardas se apoia na ameaça indireta de revolta, usando o sacrifício dos reclusos como arma. Sabemos também que a provocação de conflitos e o uso da violência — entre e com as pessoas presas — são práticas comuns, normalizadas no exercício da “segurança”.
Estas greves não podem continuar. Não são apenas protestos laborais: matam. Mataram. E continuarão a matar, enquanto forem toleradas como ferramenta de chantagem sobre quem está privado de liberdade e de direitos básicos.

Recusamos o silêncio, a indiferença e a cumplicidade.

Recusamos o encolher de ombros institucional e a normalização da morte como parte do sistema prisional.

É urgente expor, denunciar, mobilizar.

É urgente romper o isolamento das pessoas presas e fazer frente à cultura punitiva que naturaliza a violência como resposta à pobreza, à dissidência, à exclusão.

Chamamos à mobilização coletiva.

Por justiça, por memória, por todas as vidas interrompidas.

Nem mais uma morte na prisão!

Não em nosso nome!

Testemunho de um homem preso no Linhó: https://corpoemcadeia.com/2025/03/27/testemunho-correspondencia-durante-a-suspensao-das-atividades/

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Carta de companheira presa

 

Lembro-me de ter sempre ciente em mim a noção daquilo que queria ser quando crescesse. Queria contar histórias as pessoas e mostrar que a realidade é feita de vários moldes. Quando olho pra trás me consigo de alguma maneira rever. Isso tras felicidade, claro, mas tambem a certeza de que o caminho nunca se faz sem se ultrapassar obstaculos. Mas desde que entrei em prisão minha vida parou no tempo na rua era lembrada na prisão sou esquecida. Aqui em 4 paredes humidas, caroxo nas paredes colchões humidos não há aquecimento, tanto sufrimento e solidão que se passa aqui, so vejo muros, grades furregentas portas velhas, abaterem com tanta força que ate me arrepia a espinha da maneira como nos fechão as portas com uma força tremenda que ate tremem as paredes. Somos humilhadas pelas guardas, so sabem mandar calar-nos e gritar-nos, elas estão frustradas e mal amadas, e beiem da rua a pegar com nós, e nós temos que as ouvir e calar, por que se respondemos fazem-nos participações e bamos pra o castigo, e é o que elas querem, é ver-nos mal.

No outro dia na ala 1 uma guarda bateu em uma gravida de 6 meses, ela é romena e se tei 19-20 anos. So porque a rapariga se esqueceo de algo na cela, e ela lhe pedio à guarda pra que lhe abrisse a porta pra ir buscar o saco pra ir à cantina, a guarda se chatio tiveram um bate boca, a guarda atirousse à grávida e agredio, não querião que fosse aos clinicos mas as colegas poransse todas a gritar e foi de aí que alevaram aos clínicos e os medicos tiraram fotos à grávida, ele tinha negras no corpo. Agora vamos ver o que se vai passar com a guarda, si é despedida, que ja não e a primeira vez que ela agrede as reclusas, isto é um sofrimento constante, em ves de aguontarem-nos a nós, nós é que aguontamos a elas, por que sabem que si fizermos M… quem perde somos as reclusas e elas fico impunes como sempre.

Ninguem sabe o que se passa ca dentro nas prisões, isto é um sofrimento que nos vai ficar seculos pra vida.

um bejinho e abraços pra quem lê este relato triste.

Força colegas que de aqui saimos, e as guardas ficão aqui ate a reforma abrindo e fechondo portas.

Força ate sempre.

A VOZ DE DENTRO ME APOIA MUITO

OBRIGADOS POR ESTAR AI CONOZCO