“A Prisão criou-nos”. Carta de companheiro preso num centro de detenção para imigrantes em Portugal

A prisão criou-nos.

Original english version below

O nosso trauma só é tão palpável quando o conseguimos comparar com o dos nossos contemporâneos. Quando estamos rodeados de sofrimento, a nossa relação com ele muda e o nosso limiar para a dor aprofunda-se. A submissão à autoridade, obtida pelo medo, sempre esteve na linha da frente desta guerra espiritual, onde a principal munição é a delegação da vontade imposta pela autoridade.

A nossa única defesa contra esta desconfiança armada e campanha de paranoia é a certeza da segurança que só nós próprios conseguimos garantir-nos, uma certeza obtida através de consistência consciente, apoio entre pares e expressão ponderada, onde encontramos força na autossuficiência e no cuidado mútuo.

Quando a polícia ouviu a palavra “África” sair da minha boca, vi a linguagem corporal deles mudar. Tal como os cães de Pavlov ao ouvir o sino, vi o “babar” figurativo a escorrer das suas bocas abertas. A Europa tem sido muito difícil. Onde quer que me vire, sou tratado como se o meu estatuto de imigrante me tornasse automaticamente incompetente; não só pelo sistema mas também por todos os que beneficiaram dessa retórica, sem nunca perceberem ou reconhecerem esses benefícios para além do ocasional “check de privilégio”.

Apesar de sentir afinidade com quem vive dissonância sociopolítica dentro do próprio país, havia sempre uma barreira de compreensão, porque a mentalidade de imigrante não vive essa dissonância por escolha. Vive-a por isolamento sistémico dos meios para conquistar autonomia própria.

Uma coisa que me deu alguma serenidade nas primeiras quarenta e oito horas após a detenção, confinado naquela caixa de cimento durante vinte horas de seguida, foi uma inscrição na parede:

A prisão não nos pode quebrar. A prisão criou-nos.

Isto ecoava na minha cabeça enquanto percebia que o meu estatuto irregular na Europa nos últimos dois anos significava que encontrar trabalho, casa, dinheiro, amigues e comunidade era uma luta constante. Sei que todos passam por estas dificuldades em diferentes graus, mas ser rejeitade de uma casa ou trabalho só pela questão do passaporte, ou ser isolade por falta de língua ou afinidade nacional, faz com que, enquanto imigrante, já estivesse bastante limitade, forçade a procurar soluções mais criativas.

O movimento Okupa é um portal para a libertação, ao abordar diretamente os aspetos materiais das nossas lutas. Os movimentos de ocupação pela Europa, especialmente em Portugal e Espanha, surgiram historicamente durante crises de habitação como mecanismo de sobrevivência para quem foi excluído dos sistemas formais de acesso. Finalmente, poder dar abrigo a mim e a outres significava segurança e permitia-me usar o meu conhecimento para colmatar a incompetência presumida que os meus documentos implicavam.

Admiro a Europa por duas coisas: a capacidade de isolar as suas vítimas e culpá-las pela sua luta, e a adesão a uma fachada humanitária. Usando estas duas qualidades, pode-se assumir força na comunidade e engajamento político para legitimar causas humanitárias, desde que se mantenham dentro da narrativa eurocêntrica que pinta os “heróis virtuosos” do mundo como separados dos mesmos poderes imperiais que trouxeram conquista, genocídio, escravatura e extração internacional de recursos sem consequências.

A lei Okupa é a última a enfrentar forte restrição em solo imperial, pois é claro que, sem meios para uma vida digna e carreira, as pessoas imigrantes podem organizar-se e providenciar autonomamente essas necessidades. Para subverter um sistema de bem-estar social fechado, podemos assumir controlo das nossas vidas através dos restos de uma civilização dita de primeiro mundo.

No campo de detenção, as outras pessoas acolhiam-se com abraços calorosos, enquanto todes nós estávamos sentades sobre histórias complexas de migração e assimilação falhada. Exercíamos identidades nacionais únicas, ligadas por uma partilhada falta de coerência.

Um amigo, H., era arquiteto no Médio Oriente, vindo da Índia, que veio para Portugal e trabalhou na Glovo para enviar dinheiro à esposa e filhes. Enquanto pessoas adolescentes europeias anticapitalistas recuperavam de festas em nome da luta contra a conformidade, o H. entregava-lhes McNuggets. Separava um quarto do salário para impostos e quase metade para enviar para a Índia, para dar uma vida melhor às filhes.

Outro detido, B., da Nigéria, tinha chegado há um mês para trabalhar numa quinta, só para pagar os estudos da filha de dezasseis anos. Agora, ambos estavam confinados numa caixa pelo “crime” de existir sem as autorizações certas.

Quando o juiz justificou a minha detenção, disse que se uma pessoa portuguesa chegasse sem documentos a África, o tratamento pelas autoridades seria muito pior. Isto não tem base histórica. Os portugueses chegaram sem documentos a África e não foram detidos, mas sim conquistaram, cometeram genocídio e institucionalizaram o tráfico de escravos.

A ignorância do imperialista não tem limites, sempre definida por ambivalência moral enraizada na preservação da identidade nacional.

A maior mentira que vi nos círculos ativistas europeus é a ideia que o fascismo está apenas a “ressurgir”. Para algo ressurgir, tem que ter caído. O fascismo nunca caiu. Adapta-se, remodela-se, assume novas caras. Enquanto o povo europeu acreditar que o fascismo pode ser desmantelado pelas instituições que o sustentam, a conformidade será sempre o único caminho permitido à classe trabalhadora, enquanto a dissonância é encenada por uma elite relutante que se faz passar por resistência.

Prison made us

(english version)

Our trauma is only as tangible as it is comparable to that of our contemporaries. When we are surrounded by suffrage, our relationship to it mutates, and our threshold for pain deepens. Submission to authority, obtained through fear, has always been at the forefront of this spiritual war, where the main ammunition is the delegation of will as imposed by authority.

Our only defense against this weaponized distrust and campaign of paranoia is the certainty of safety that only we can guarantee ourselves, certainty obtained through mindful consistency, peer reliance, and thoughtful expression, where we find strength in self-reliance and mutual care.

When the police heard ‘Africa’ come out of my mouth, I watched their body language change. Like Pavlov’s dogs hearing that bell, I saw the figurative drool expelling from their hanging jaws. Europe has been very difficult. Everywhere I turned, I was treated as though my status as an immigrant had always rendered me incompetent by default; not only by the system, but vicariously through everyone who had benefited from that rhetoric, without ever understanding or acknowledging those benefits beyond the odd “privilege check”.

Although I share an affinity with those who experience sociopolitical dissonance within their own nation-state, there was still a barrier of understanding, in that the immigrant mentality is not experiencing that dissonance through choice. It is experienced through systemic isolation from the means of acquiring one’s own autonomy.

One thing that guaranteed me some serenity within the first forty-eight hours of the arrest, being confined to that small concrete box for twenty hours at a time, was an etching on the wall:

Prison can’t break us. Prison made us.

It repeated in my head as I realized that my status as an irregular in Europe for the last two years had meant that finding work, housing, money, friends, and community had become an ever-present struggle. While I understand that everyone experiences these struggles to varying degrees, being rejected from housing or work purely on the technicality of a passport, or being isolated from community due to a lack of language skills or the absence of national affinity, meant that as an immigrant I was already massively restrained, conditions that forced me to pursue more creative solutions.

The Okupa movement stands as a gateway to liberation through addressing the material facets of one’s struggles directly. Squatting movements across Europe, particularly in Portugal and Spain, have historically emerged during housing crises as survival mechanisms for those excluded from formal systems of access. Finally, being able to house myself and others meant that I could be safe and use my pre-existing knowledge to bridge the gap of by-default incompetence that my papers seemed to imply.

I admire Europe for two things: its ability to isolate its victims and blame them for their struggle, and its adherence to a humanitarian façade. Utilizing these two qualities, one can assume strength in community and engagement with political optics to entitle humanitarian pursuits, so long as they operate within the Eurocentric narrative that frames the self-proclaimed virtuous heroes of the world as separate from the same imperial powers that introduced conquest, genocide, slavery, and international material extraction without consequence.

The Okupa law is the latest to face deep constriction on imperial soil, for it is clear that without the means to acquire dignified living and career pathways, immigrants might organize and autonomously provide these necessities for themselves. In order to subjugate a gate-kept social welfare system, we might assume control of our own lives through the leftovers of a so-called first-world civilization.

The others in this detention camp welcomed one another with warm embraces, as we all sat precariously upon complex histories of failed international migration and assimilation. We exercised unique national identities bound together by a shared lack of coherence.

One friend, H., was an architect in the Middle East from India who had come to Portugal and assumed work with Glovo to send money to his wife and children back home. While anarcho-involved, anti-capitalist European teenagers recovered from week-long benders in the name of dismantling conformity, H. delivered their McNuggets. Setting aside a quarter of his wage for income tax and nearly half to send back to India so his children might have a better life.

Another detainee, B., from Nigeria, had come to Portugal just a month earlier to work on a farm, exclusively to fund his sixteen-year-old daughter’s higher education. Both now sat confined in a box for the crime of existing without the correct permissions.

When the judge justified my detention, he claimed that if a Portuguese national were to arrive in Africa undocumented, their treatment by immigration authorities would be far worse. This claim is historically baseless. Portuguese nationals did arrive undocumented in Africaand their arrival was marked not by detention, but by conquest, genocide, and the institutionalization of the slave trade.

The ignorance of the imperialist knows no bounds, long defined by moral ambivalence rooted in the preservation of national identity.

The greatest lie I have witnessed in European activist circles is the belief that fascism is merely “resurging.” For something to rise, it must have first fallen. Fascism never left. It adapts, reshapes itself, and wears new faces. As long as the people of Europe believe that fascism can be dismantled through the very institutions that sustain it, compliance will remain the only permitted path for the working class, while dissonance is theatrically embodied by a reluctant elite posing as resistance.

About Vozes de Dentro

Somos um grupo de pessoas presas, presos e pessoas que do outro lado dos muros acompanham e participam, de diferentes formas, nas lutas das pessoas reclusas e das suas famílias. As pessoas privadas de liberdade e especialmente as pobres, racializadas, mulheres, transgéneros e crianças enfrentam condições desumanas, violência física e psicológica nas prisões. As histórias destas pessoas são altamente invisibilizadas, e, por isso, expostas a constantes violações dos seus direitos fundamentais (1). Em particular, Portugal é dos países europeus onde mais morrem reclusa/os (2) e as prisões portuguesas têm sido por diversas vezes alvo de críticas do Conselho da Europa, nomeadamente do Comité Contra a Tortura. Conjuntamente, encontra-se entre os países da Europa onde se condena mais a penas de prisão, por períodos mais longos e onde a sobrelotação é uma realidade. Os índices de encarceramento são altos especialmente entre as mulheres, também condenadas a penas maiores, e não existem dados oficiais sobre o número de pessoas transgénero, bem como sobre a pertença étnico-racial (1, 3). Testemunhos de reclusas e reclusos e seus familiares indicam o frequente recurso a fármacos sedativos, anti psicóticos e anti convulsivos sem uma conexão clara com a necessidade clínica dos próprios fármacos, mas mais claramente em coerência com a atitude repressiva do sistema prisional (4). A maioria dos estabelecimentos prisionais caracterizam-se por graves problemas nas infraestruturas, péssima alimentação, falta de acesso a bens e produtos essenciais. Os cuidados de saúde são também precários e deficitários, com a maioria de profissionais de saúde subcontratada. A atividade laboral remunerada é parca e traduz-se, maioritariamente, na exploração e as ofertas formativas são poucas. Isto, aliado à baixa aplicação de medidas de flexibilização de penas, ao inexistente apoio para a reinserção social, ao isolamento social a que ficam sujeitas as pessoas presas com severas limitações de contato com as suas famílias e comunidades e os percursos prévios de institucionalização que muitas viveram previamente à prisão, configura os ciclos de pobreza-exclusão-institucionalização-violência (5). Na prisão as discriminações, violências e a exploração persistem e são exacerbadas remetendo-as para invisibilidade, abandono social e marginalização. O objetivo deste grupo é de visibilizar a realidade obscurecida das prisões e pensar coletivamente possíveis ações de apoio para quem está dentro. View all posts by Vozes de Dentro

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