About Vozes de Dentro
Somos um grupo de pessoas presas, presos e pessoas que do outro lado dos muros acompanham e participam, de diferentes formas, nas lutas das pessoas reclusas e das suas famílias.
As pessoas privadas de liberdade e especialmente as pobres, racializadas, mulheres, transgéneros e crianças enfrentam condições desumanas, violência física e psicológica nas prisões.
As histórias destas pessoas são altamente invisibilizadas, e, por isso, expostas a constantes violações dos seus direitos fundamentais (1).
Em particular, Portugal é dos países europeus onde mais morrem reclusa/os (2) e as prisões portuguesas têm sido por diversas vezes alvo de críticas do Conselho da Europa, nomeadamente do Comité Contra a Tortura. Conjuntamente, encontra-se entre os países da Europa onde se condena mais a penas de prisão, por períodos mais longos e onde a sobrelotação é uma realidade. Os índices de encarceramento são altos especialmente entre as mulheres, também condenadas a penas maiores, e não existem dados oficiais sobre o número de pessoas transgénero, bem como sobre a pertença étnico-racial (1, 3).
Testemunhos de reclusas e reclusos e seus familiares indicam o frequente recurso a fármacos sedativos, anti psicóticos e anti convulsivos sem uma conexão clara com a necessidade clínica dos próprios fármacos, mas mais claramente em coerência com a atitude repressiva do sistema prisional (4).
A maioria dos estabelecimentos prisionais caracterizam-se por graves problemas nas infraestruturas, péssima alimentação, falta de acesso a bens e produtos essenciais.
Os cuidados de saúde são também precários e deficitários, com a maioria de profissionais de saúde subcontratada.
A atividade laboral remunerada é parca e traduz-se, maioritariamente, na exploração e as ofertas formativas são poucas.
Isto, aliado à baixa aplicação de medidas de flexibilização de penas, ao inexistente apoio para a reinserção social, ao isolamento social a que ficam sujeitas as pessoas presas com severas limitações de contato com as suas famílias e comunidades e os percursos prévios de institucionalização que muitas viveram previamente à prisão, configura os ciclos de pobreza-exclusão-institucionalização-violência (5).
Na prisão as discriminações, violências e a exploração persistem e são exacerbadas remetendo-as para invisibilidade, abandono social e marginalização.
O objetivo deste grupo é de visibilizar a realidade obscurecida das prisões e pensar coletivamente possíveis ações de apoio para quem está dentro.
Agosto, 2022
Assunto: Abuso de autoridade, homofobia e negligência no trabalho
Eu venho por este meio comunicar que no dia xx/xx/2022 às 17:33, pedi à chefe de turno para fazer uma ligação para minha mãe no Brasil junto à minha namorada no hall do 1° piso no telefone das escadas e ela permitiu, então tivemos de aguardar 2 reclusas que estavam à frente para ligar, e assim que chegou à nossa vez liguei para minha mãe e ela ao atender, logo já aparece a dona H. ao pé do telefone a gritar sem nenhum pingo de educação a mandar-nos para nosso piso impedindo-nos de fazer a ligação, sendo que a minha mãe apenas queria falar com a sua nora.
Fiquei enervada mas fui para a meu piso calada, mas também muito chateada, pois se eu não poderia fazer a ligação porquê que ela havia permitiu? Pura negligência de trabalho. E justamente na hora em que minha mãe atende o telefone, a dona H. percebe-se, e começa a dar shows, berros e a abusar da sua autoridade, pois ali não houve se quer um pingo de respeito e capacidade para exercer o seu cargo, e cá já há muitas reclusas farta dela. A minha família não tem nada a ver com o stress de trabalho de guarda, e ATENÇÃO reclusa sou eu, não minha mãe, que com toda a gritaria que ela fez acabou por deixar minha mãe preocupada e aflita sem saber o que se passava pois tive de desligar o telefone rapidamente.
Em seguida quando eu já estava no meu piso, a dona H. com uma atitude infantil e precária me mandou bocas e à minha namorada e ela permaneceu calada para não haver conflitos, depois disse também que se ela era minha mulher que eu pegasse nas coisas dela e a levasse daqui, mas como? Se estamos detidas. Já estava muito enervada, fui para a minha cela e depois voltei para retornar a ligação para minha mãe, e estavam muitas guardas no gradão inclusivé o comissário a ouvir reclamações de outra reclusa, e assim aproveitei para expor e falar o que estava a sentir, que toda a situação que eu havia acabado de passar era abuso de autoridade e um familiar nosso não tem nada a ver, porém com toda a situação fiquei muito exaltada e com isso mandaram-me ao gabinete, junto a patrulha de guardas a me acompanhar, onde fecharam a porta, e em seguido o chefe P. empurra-me e pega-me pelo braço com muita força, e eu disse: Agora vais bater em mulher? Covarde, eu ainda não esquecei do ato de xenofobia que fizeste comigo no caminho da clínica, experimente tocar-me um dedo que lhe meto um processo, “Claro pois ele outro dia foi super machista, arrogante e xenófobo em uma conversa a caminho para a clínica onde ele corrigia a minha gramática Brasileira sendo que eu fiz ensino superior e a gramática Portuguesa é complemente diferente da nossa Brasileira, nota-se ao conjugar verbos, ou seja nenhuma e nem a outra errada, Portugal colonizou o Brasil, mas lá já havia índios a morar quando chegaram. Estou exausta de ser tratada até pela enfermeira que também já fiz queixa por ser xenófoba com nós Brasileiros, cá dentro há muitas injustiças, xenofobia, abuso de autoridade, negligência de trabalho e homofobia que é CRIME!
O comissário atento ao conflito que estava acontecer, levou-me para outra parte de escritório, onde foi muito educado, me ouviu, falou e me acalmou, pois nesse momento mostrou-se um homem humano, com total capacidade e experiência de trabalho cujo o cargo que tem, e acabou toda a confusão.
Comentários fechados em Carta de uma mulher presa em Portugal
Vozes de Dentro continua a acompanhar a luta das pessoas presas, das mães e das famílias de quem morreu nas prisões do estado. No dia 17 de Setembro, às 16h no Rossio, juntamo-nos à manifestação convocada pelas famílias de Daniel, Danijoy e Miguel.
Contra todas as prisões!
Não estamos todas, faltam as presas!
ENTRARAM VIVOS E SAÍRAM MORTOS!
QUEREMOS JUSTIÇA PARA DANIEL, DANIJOY, MIGUEL E TODAS AS VÍTIMAS DO ESTADO PORTUGUÊS
Um ano de luto, sem Justiça. As famílias de Daniel Rodrigues e Danijoy Pontes – que morreram no dia 15 de setembro de 2021, no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) – ainda hoje não têm respostas concretas sobre a causa de morte dos dois jovens. A estas, soma-se a família de Miguel Cesteiro, encontrado morto no Estabelecimento Prisional de Alcoentre, a 10 de janeiro de 2022. Ao contrário do que diz a lei, perante estas três mortes, todas em circunstâncias suspeitas, a Polícia Judiciária não foi chamada ao local. Além disso, a demora no acesso aos corpos das vítimas e aos relatórios das autópsias por parte das famílias são sintomáticos da invisibilização produzida pelo estado que condena ao silêncio e ao esquecimento as violações nas cadeias portuguesas. Como é possível que a DGRSP se tenha apressado a arquivar tão rapidamente estes casos? Porque não respondem aos pedidos feitos pelos advogados? Onde estão os relatórios das autópsias de Daniel e Miguel?
De facto, as instituições de justiça portuguesas ignoram o sofrimento e a angústia das mães, filhos e filhas das vítimas do estado, parecendo não se preocupar com o facto de, em Portugal, o tempo médio de duração da pena de prisão ser o triplo da média europeia, e de, nas últimas décadas, Portugal ser dos países onde mais se morre nas prisões e o terceiro com maior taxa de suicídio. Acrescem ainda denúncias sistemáticas de situações de tratamento desumano e tortura nas prisões. Porque esteve Danijoy na solitária nos dias que antecederam a sua morte e porque continuam a existir estes espaços? Porque não puderam as mães visitar os seus filhos durante tanto tempo?
Tudo isto revela como a punição (das mais diversas formas), o castigo e a violência institucional orientam as práticas quotidianas nas prisões. A isto acrescenta-se uma tendência geral de controlo e repressão com base na sobremedicalização, aplicada com a cumplicidade dos profissionais de saúde que trabalham nas prisões, através da prescrição generalizada de um cocktail de fármacos perigosos para a vida das pessoas, como antipsicóticos, sedativos e metadona. Todas estas drogas foram reveladas nas autópsias de Danijoy e Daniel. Porque tomavam Daniel e Danijoy certos medicamentos mesmo que não sofressem de doenças que justificassem a sua prescrição?
Além do mais, o Código da Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade afirma que a pessoa reclusa mantém a titularidade dos direitos fundamentais, de acesso a cuidados de saúde em ambulatório e internamento hospitalar em condições idênticas às que são asseguradas em liberdade. Contudo, com base na experiência de grupos e coletivos de apoio, nos relatos de pessoas presas e das suas famílias e em relatórios de organismos internacionais, é evidente uma constante negligência e falta de acesso à prevenção, assistência médica e terapias. Mas o estado português segue indiferente ao apelo das famílias e da sociedade organizada por justiça e verdade. Porque morreram Daniel, Danijoy e Miguel e até quando continuarão a morrer pessoas sob tutela estatal?
Os relatórios internacionais confirmam que há perigo de vida nas prisões e que a política de segurança pública e justiça em Portugal produz terror, dor e morte contra pessoas negras, ciganas e pobres. Se assim não o fosse, como explicar a razão pela qual Portugal apresenta taxas de encarceramento bem acima da média? O mesmo em relação à taxa de encarceramento de mulheres e de pessoas estrangeiras, à percentagem de pessoas detidas enquanto aguardam julgamento ou à sobrelotação nas prisões? Exigimos respostas céleres!
A indiferença, o racismo institucional e a negligência estatal em relação às mortes de Daniel, Danijoy, Miguel e tantas outras, demonstra-nos que o estado impossibilita, dificulta e promove obstáculos à luta das famílias por Verdade e Justiça. Mas as mães e os familiares das vítimas do estado resistem! Seguem na luta!
Contra a indiferença, pela memória e por igualdade convocamos todes a estarem com estas famílias, dia 17 de setembro, às 16h30, no Rossio (Lisboa), numa manifestação para exigir justiça por Daniel, Danijoy, Miguel e todas as vítimas do sistema prisional.
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07-07-2022
Aos corações que se lembram que as prisões existem: vocês.
As reclusas que se não tentarem mudar o hoje, os amanhas serão sempre iguais a ontem.
As reclusas do E.P. vêm por este meio apelar a vossa atenção para a situação presente, que se vive neste estabelecimento prisional feminino.
Um atentado aos nossos mais elementares direitos, previstos na constituição portuguesa e nos direitos humanos internacionais. Cuidados de saúde. Consultas de clínica geral esperas de semanas pedidos incontáveis, com resposta zero.
Dentista, inúmeros casos de espera, acima dos três meses abcessos tratados com Ibuprofeno (quando há em stock) ou Paracetamol. Consultas de especialidade, com espera acima dos seis meses e em alguns casos, anos.
Reclusas devolvidas à liberdade sem nunca, terem sido diagnosticadas e tratadas.
A medicação prescrita, por vezes vem errada para os pavilhões (dezenas de vezes) e quando por nós é exigida a correção, ouvimos “tome se quiser”.
Nota: medicação de psiquiatra, o que agrava as consequências da toma indevida por outras reclusas, que por não terem formação médica, nem sabem os riscos inerentes a tamanha negligência,
As refeições são pobres de ingredientes a uma alimentação equilibrada, nomeadamente, durante semanas, meses, é sempre igual.
Legumes, praticamente não existem.
Arroz e massa alimentícia são fornecidas diariamente, também a batata. É um sonho, esporadicamente um vegetal, espreita no prato, pelo cantinho do nosso imaginário.
Carne e peixe, em quantidades equivalentes à refeição de uma criança em idade pré-escolar na maioria das vezes, refeições mal cozinhadas, cruas e isentas de tempero.
As refeições vegetarianas são surreais, grão, arroz, feijão e massa e repete-se o menu, na refeição seguinte, na semana seguinte e no mês seguinte.
Inúmeros casos de intolerâncias alimentares, tantos que o serviço de enfermagem, traz diariamente para os pavilhões, anti-histamínicos que são distribuídos voluntariamente, sem prescrição médica, a quem se queixa de erupções cutâneas ou distúrbios intestinais.
A sopa, primeiro alimento da tabela alimentar ou se reduz a uma solução aquosa, ou a uma massa com a consistência que normalmente se associa a um pudim.
Sem sabor e mais uma vez, ausência de legumes. Os reforços que nos são fornecidos às 19h horas, após o termino de jantar, são constituídos por pão, doce na maioria das vezes, esporadicamente um pão com queijo, ou manteiga e um dia por semana com fiambre, esse intragável, adulterado pelo calor, com cheiro nauseabundo e coloração esverdeada, pelo tempo entre a confeção e a entrega.
Os contactos com o exterior são caóticos. Duas cabinas de telefone por piso e duas no recreio para cerca 180 reclusas.
O ruído inerente à dimensão do espaço e quantidade de reclusas, é gigantesco o que como é óbvio é impossível isentar o ruído ou fazer-nos ouvir nos parcos 5 minutos diários, além do fator privacidade.
A correspondência é revista pelo corpo de guardas, envelopes e selos que nos enviam são apreendidos porque a cantina os vende. Surreal é a cantina vender envelopes brancos [correio verde], mas selos não. Um negócio implantado.
Na higienizarão das celas é-nos fornecido cinco litros de lixívia, diluídos em agua por cela com 4 mulheres cada. Quatro rolos de papel higiénico por mês. Existem reclusas que não têm qualquer apoio familiar a nível financeiro, e atividade laboral no E.P. é diminuta, e só uma percentagem muito baixa o consegue, o que torna a situação degradante para estas reclusas. Quatro pedaços minúsculos de sabão azul e branco, destinados a lavagem de roupa e para alguns até para a sua higiene pessoal.
A cantina do E.P. tem bens à venda, mas por rotina os produtos mais acessíveis, não chegam para todas as reclusas.
Bens esgotados durante meses (ex. aveia) não existe há meses, um alimento que utilizamos para suprimir a carência de outros.
As condições de habitabilidade são precárias, celas com esgotos entupidos, janelas partidas e outras inexistentes.
Cobertores na quantia de quatro em más condições, que durante os meses de inverno não aquecem do frio, pela falta de janelas com vidros.
E por fim o acesso aos serviços de educação, chefia e Diretoria do E.P.
É-nos fornecido um cartão P.T. onde por pressuposto deveriam ser inseridos os números de telefone de familiares: mas para tal é exigido um comprovativo enviado para um email do E.P., com o n° e o nome do utilizador.
Inúmeros emails são enviados, e por vezes esperamos meses até os números serem inseridos, privando-nos do contacto com a família.
Quando pedimos esclarecimento aos serviços de educação na maioria das vezes, nem resposta obtemos.
Existem reclusas que não sabem o nome da educadora/e que lhe foi atribuído, basicamente porque não a conhecem.
Só pudemos fazer um pedido por semana para os serviços pretendidos e assim se arrasta por meses a solução dos problemas de quem se encontra impotente para se fazer ouvir.
Regime de visitas e bens permitidos entrar no E.P.:
1 kg de bens alimentares por visita, mas o critério dos produtos não é igual para o corpo da guardas na portaria.
Existe uma tabela de bens permitidos, mas o critério é deixado ao grau de humor de quem fez a revista aos sacos. Produtos que entram numa visita, na próxima não podem entrar. Pura utopia a lista afixada.
Encomendas são permitidas se devidamente autorizadas, mas é recorrente, puro e simplesmente se evaporem dentro do E.P.
Transferências bancarias que levam meses a entrar na conta da reclusa, e outras que nunca entram. Erros básicos de valores inseridos na conta de outras reclusas, e jamais resolvidos. Cartas dirigidas ao Sr. comissario e Sra. Directora, sem resposta.
Correspondência para estâncias superiores violada e retida no E.P. etc. etc.
Todos os factos expostos são rigorosamente verdade sem exageros ou ficção.
Estamos privadas da liberdade à ordem dos tribunais competentes, a cumprir as penas que nos foram impostas, mas aqui a sensação é de um segundo julgamento e um duplo castigo, é unânime, questionar-mo-nos se a reinserção social de que tanto ouvimos falar em debates políticos e na comunicação social é uma mera fantochada, onde quem mexe as cordas do nosso futuro, manipula a seu belo prazer o nosso destino.
Sentimentos ambíguos contra um sistema que propõe o travão, a quem viveu à margem da lei, mas não cria condições para tal.
O estigma da prisão, está e vai connosco na revolta interior de não passarmos de meros números.
Atentamente
As reclusas do pavilhão x.
Comentários fechados em Carta Coletiva de presas numa prisão feminina em Portugal

CARTAS INSUBMISSAS
editada pelo coletivo Vozes de Dentro
2022
“Não me sinto nem um pouco preparada para retornar para a vida lá fora, o psicológico totalmente despreparada, muito tempo vivendo dentro deste galinheiro onde não passamos de galinhas que somos alimentadas, dopadas e trancadas nos pardieiros novamente.”
Cartas escritas por mulheres presas, que dão voz a todas as pessoas que sofrem a tortura quotidiana da privação de liberdade.
5 euros
Se estiveres interessade em contribuir* para o coletivo adquirindo uma zine, enviamos via CTT e a versão web podes aceder aqui: https://cryptpad.fr/file/#/2/file/f4iTLCCzcpMJGSs8yR0F59TM/
contacta-nos: vozesdedentro@riseup.net
Também podes adquirir diretamente na Livraria das Insurgentes em Lisboa: @livrariainsurgente
*as contribuições angariadas são para apoio direto de presos/as.
Comentários fechados em Cartas Insubmissas – Zine I das Vozes de Dentro
Coletamos livros para enviar a quem está dentro. Quem tiver livros para oferecer (não podem ser de capa dura), por favor, contactem-nos através de mensagem privada.
Sugerimos também, se quiseres, que deixes uma mensagem/dedicatória no livro que ofereceres para alguém que está dentro.
Muito obrigada!
“A redução do espaço vital traz consigo o domínio totalitário do tempo, que se prolonga e se torna pesado até ser medonho.”
Mezioud Ouldamer
Um livro para uma pessoa encarcerada é uma ferramenta fundamental para combater a tortura infligida por um sistema cujo objectivo é reduzir até às últimas a sua vontade de resistência e fantasia.
vozesdedentro@riseup.net
Comentários fechados em Coleta de Livros

A atual crise e repressão violenta nas prisões e o silenciamento das vozes de dentro
As várias situações de violência denunciadas por presxs nos últimos meses, tal como as que a APAR – Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso tem tornado público, demonstram claramente que as violências reiteradas e a violação dos direitos humanos nas prisões são comuns, apesar de toda a legislação nacional e internacional que supostamente serviria para diminuir estas situações, e ainda, que ao fim de mais de dois anos os efeitos da crise pandémica nas prisões pioraram as condições de encarceramento e a vida de quem está presa e por isso, o aumento da violência e de mortes (conforme demonstram os dados a 31 de Dezembro de 2020) nas prisões.
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Comentários fechados em A atual crise e repressão violenta nas prisões e o silenciamento das vozes de dentro
Solidariedade com os presos em luta no Estabelecimento Prisional de Monsanto!
15 homens presos no EP de Monsanto encontram-se em greve de fome e de sede em protesto contra o agravamento das condições de detenção a que estão sujeitos desde o início da crise pandémica.
O EP de Monsanto é uma prisão de segurança máxima onde quem está preso fica confinado à cela individual uma média de 22h, as refeições são feitas individualmente na cela, são apenas permitidas duas horas de recreio onde são altamente vigiados, as atividades laborais e educativas possíveis são escassas e com pouca frequência, atualmente praticamente inexistentes, as visitas são sujeitas a várias restrições desde a separação por vidro até à impossibilidade de receberem comida ou outros bens essenciais por parte de quem visita. A vida nesta prisão é já habitualmente marcada pelo isolamento extremo aliado às péssimas condições de detenção ficando seriamente comprometidas a saúde mental e a vida para quem está encarcerado. Recentemente em Agosto de 2021 um homem preso em Monsanto fez queixa à DGRSP denunciando o severo regime e as condições desumanas nesta prisão (https://onovo.pt/…/fugitivo-argentino-queixa-se-da-vida…)
Esta prisão é também aquela que serve para castigar mais duramente aqueles que são acusados de desobedecer e pôr em causa a ordem prisional noutras prisões e relembramos que no início da crise pandémica vários homens reclusos foram transferidos para a prisão de Monsanto por terem denunciado a situação dentro das prisões através da publicação de vídeos nas redes sociais (https://www.jornalmapa.pt/…/03/31/as-prisoes-sao-um-virus/).
A crise pandémica veio agravar a situação nas prisões. Confinamentos e quarentenas nas prisões significaram uma extensão do regime de segurança máxima a grande parte da população prisional nas diversas prisões. Algumas das consequências diretas foram o aumento do número de suicídios que duplicou em 2020 e o aumento da violência institucional que de entre outras formas se traduz na sobremedicalização, que muitas vezes resulta na morte das pessoas reclusas às mãos do estado, tal como, são exemplo as mortes de Danijoy Pontes e Daniel Rodrigues no EP de Lisboa em Setembro de 2021 e de Miguel Cesteiro no EP de Alcoentre a 10 de Janeiro de 2022 (https://www.jornalmapa.pt/…/juntas-os-do-luto-a-luta…/).
Além disto os parcos recursos materiais e afetivos a que as pessoas presas podiam aceder para suportar a vida na prisão, tais como bens alimentares e outros bens essenciais, visitas e contacto com familiares e amigos e atividades dentro da prisão foram e continuam a ser severamente limitados, sob a justificação da Covid-19, particularmente na prisão de alta segurança de Monsanto, tal como denunciaram ontem estes 15 homens em greve de fome e sede, através da APAR (https://www.facebook.com/APARPT/posts/5223404911029124).
O gesto dos quinze vem se juntar a muitas outras queixas, que descrevem as condições insuportáveis da prisão de alta segurança de Monsanto. Além disso, o protesto foi implementado devido à ausência de qualquer atividade, ao encerramento da biblioteca, do ginásio e às restrições impostas aos reclusos e seus familiares desde o inicio da pandemia.
As suas reivindicações são: a abertura da biblioteca e ginásio. O regresso de produtos que deixaram de poder comprar na cantina, tais como, leite de soja, adoçante, pão fatiado, queijo, fiambre, mortadela, chourição presunto, frutos secos, fruta variada, salsichas, alface, tomate e café solúvel e que as máquinas de venda automática voltem a ter hambúrgueres, cachorros, pizzas e sandes variadas.
Toda a nossa solidariedade com os presos em luta!
Comentários fechados em Solidariedade com os presos em luta no Estabelecimento Prisional de Monsanto!


A desumanização da prisão passa pelo controlo e repressão das relações de amizade e intimidade e da expressão do afeto tão fundamentais para a sobrevivência e para sermos humanas. O toque, um abraço ou qualquer expressão de afeto são motivo de castigo incluindo o internamento em cela de isolamento.
A repressão, a perseguição e o castigo da sexualidade sob uma moral patriarcal e heteronormativa criam as condições para o abuso, e a violência sexual e a profunda desumanização a que as pessoas presas são sujeitas na prisão.
A carta que partilhamos foi nos enviada desde uma prisão em Portugal.
“Violência Sexual, Moral e Psicológica
Aqui na cadeia a meu ver como reclusa há alguns anos e bissexual que não escondo para ninguém! Existe sim violência sexual 1º porque somos privadas de manter qualquer contacto, se tiver parceiro ou parceira é tudo dificultado, se conhecemos alguém aqui dentro e criamos afinidades não nos dão condições para ter uma relação intima, que no meu ver é muito incorreto, por vezes gera muita promiscuidade por parte de algumas pessoas pelo fato de não obterem este tempo e espaço, já vi muitas vezes gente ir ao castigo pelo fato de ter sido pega no ato sexual, agora eu pergunto o sexo entre duas pessoas que se gostam e é consentido é crime? Claro que não! Crime é colocar estas pessoas de castigos psicológicos por fazerem algo que todos nós humanos praticamos diariamente, para mim isto é uma grande violência!
Outra coisa que é muito comum são os guardas homens assediarem-nos a nós reclusas e não são punidos isto é crime, por vezes posso garantir que ter relações sexuais com um guarda prisional é super fácil basta ser caladinha e entrar no jogo nojento, isto sim é abuso. Conheço duas reclusas que têm um “namoro” (risos). Rio-me porque não vejo isto como namoro e sim um aproveitamento com uma guarda prisional sim isto mesmo que você está lendo!
Em outros casos já pegámos em flagrante guardas aos beijos com reclusas na casa de banho.
Acho que devia sim ter um sistema em que as mulheres pudessem ter o seu ponto de privacidade respeitado e não violado.
Aqui tem muitas confusões nas celas porque muitas vezes colocam mulheres juntas, ali vivem, se gostam, começam uma relação e muitas das vezes como ficamos 24h por dia sem fazer nada, estas pessoas terminam na noite indo para a cama uma da outra e ali rola alguma coisa, muitas das vezes as colegas ajudam, outras fazem disto um grande problema e é onde gera torturas porque dão os castigos.
Fico muito revoltada sou a favor do amor e da paz e do sexo consentido. Agora vou falar de mim sou M. J. reclusa deste sequestro estatal, tive uma relação com uma mulher reclusa, na época estava de castigo. 6 meses de castigo a viver numa cela sozinha de menos de dois metros, isto mesmo, 6 meses tudo isto porque denunciei algumas coisas erradas daqui para a provedora da justiça e nesta época eu e a S. nos gostámos muito, só que estávamos proibidas de ter contacto eu não aceitava ela também não começámos uma luta, discussões com guardas, comissário etc… e quase todos os dias nos levavam ao psiquiatra para nos darem medicação, a S. começou a ter uma depressão pelo afastamento e eu comecei a decair também ela era o meu apoio e pelo conselho da psiquiatra ao E.P. desceram a Sofia para o primeiro piso para uma cela ao lado da minha, a gente só podia estar no corredor, sentadas no chão porque não há bancos. Um dia sou chamada ao escritório com ela e a minha educadora que era a mesma dela, a Dra chama-nos e diz – “Olá sabe porque estou aqui? – E nós dissemos – “Não!”. E ela disse – “Tenho um alto de notícia da guarda F. que viu vocês na fila da medicação abraçadas e a S. com as mãos dentro da sua calça!.” Bom quando a mulher nos diz aquilo eu quase morri de vergonha! Parei, pensei e disse – “Dra. a guarda F. não é a mesma que eu denunciei? Não é a mesma que me trancou na cela com fome e que fiz queixa e que inclusive lhe comuniquei?.” Ela a educadora desconversava e eu digo – “Olha aqui você está a falar com quem? Sou mãe de filhos e jamais me prestaria a este papel, me respeite e nos respeite, nunca fizemos isto e fui perseguida pelo fato de tentar ter esta relação” -, e na verdade contando o lado bom tinha uma guarda que gostava muito de mim e dizia – M.J. hoje ficas à vontade” -, e nos deixava ficar na cela as duas durante as duas horas que dava que era a hora de jantar, isso seria um segredo nosso, e eu sentia que estava fazendo um crime, mas vendo por outro lado dava uma adrenalina e tornava o momento único, porque ali só era eu e ela e a gente falava de tudo, chorava, ria, planeava, naquele momento só ela me entendia não era sexo era só carinho afeto e um abraço caloroso, chorar um choro dividido de alguém que se entende que sabe o que se passa!
Voltando à Violência Sexual
A violência sexual é séria nos deixa cicatrizes profundas. Eu vejo este tipo de violação acontecer todos os dias, todas as horas. Agora volto a outra questão! Em 2020 até 2021 tentei visitas com um homem recluso que até então criei uma grande afinidade, trocámos cartas durante mais de 2 anos e decidimos nos conhecer, a lei diz que só é preciso 6 meses de correspondência e o certo é que até à data de hoje tudo o que fiz, pedido e ele também fez, foi negado mas a lei permite e o E.P. viola. Depois dizem que as pessoas são promiscuas. E dão castigos pesados simplesmente pelo toque que não temos, pelo sequestro estatal.
Triste mesmo fico pensando aqui às vezes comigo mesma, aprendemos a gostar de uma pessoa, somos humanos precisamos de toque, cheiro, carinho amor, intimidade, sexo e só porque estamos presas somos proibidas de o fazer! Mas o pior é pensar que se eu quiser ter sexo para ter vantagens aqui dentro do “Sistema” eu só preciso fazer sexo oral ou anal, ou qualquer tipo de sexo com um guarda que goste do meu corpo que me deseje, ou pior que me diga na minha cara que eu sou o fetiche dele, que deseja minha boca, ou até mesmo o que fazem e dizem para colegas minhas!
Aqui fica um pouco do meu relato puro e honesto e verdadeiro…
Espero um dia sair daqui e que isto não prejudique o meu psicológico porque a minha vida sexual não sei como vai estar depois de tantos traumas.
P.S.: Na minha humilde opinião a violação já começa pelo sistema.
Já ouvi aqui tantos relatos que um dia quero compartilhar com vocês.
Ainda não falei dos contactos dos guardas com as reclusas quando vão de precária, quero dizer os encontros que acontecem nas precárias! Um dia falamos sobre isto!
Aqui vai um grande beijo de luz sorte para todos que lerem esta carta.”
Comentários fechados em Amor Entre Mulheres na Prisão em Portugal = Solitária
Publicamos três cartas que nos chegam de diferentes prisões com denúncias que evidenciam a falência completa da assistência de saúde às pessoas encarceradas, a arbitrariedade e o racismo com que são tratadas as presas estrangeiras, as negociatas que se aproveitam da situação de vulnerabilidade dos presos e presas, e um sistema prisional que quotidianamente devora milhares de pessoas que sobrevivem em condições degradantes e sujeitas a todo o tipo de torturas.
Comentários fechados em 3 cartas de Dentro
8 de Março Dia Internacional das Mulheres
Não estamos todas, faltam as presas!
Somos um coletivo chamado Vozes de Dentro, constituído por pessoas presas e pessoas que do outro lado dos muros acompanham e participam, de diferentes formas, nas lutas das pessoas presas e das suas famílias.
Estamos aqui hoje por todas as mulheres, pessoas trans e todas aquelas que transgridem as normas de género e cuja luta se desenvolve dentro das prisões. As histórias destas pessoas são altamente invisibilizadas, e, por isso, expostas a constantes violações dos seus direitos fundamentais.
Nas prisões as pessoas privadas de liberdade e especialmente as pobres, racializadas, mulheres, transgéneros e crianças enfrentam condições desumanas, violência física e psicológica. Confinamento e quarentena na prisão significa ficar mais de 22h fechada na cela, acesso a uma chamada telefónica por dia o que comporta graves violações dos seus direitos humanos colocando as suas vidas em risco.
Em particular, Portugal é dos países europeus onde mais morrem reclusas e reclusos e os Estabelecimentos Prisionais portugueses têm sido por diversas vezes alvo de críticas do Conselho da Europa, nomeadamente do Comité Contra a Tortura. Encontra-se também entre os países da Europa onde se condena mais a penas de prisão, por períodos mais longos e onde a sobrelotação das cadeias é uma realidade.
Os índices de encarceramento são altos especialmente entre as mulheres, também condenadas a penas maiores, e não existem dados oficiais sobre o número de pessoas transgénero, bem como sobre a pertença étnico-racial.
Os cuidados de saúde são também precários e deficitários, com a maioria de profissionais de saúde subcontratada, sem formação adequada, ou que têm pouco interesse nos cuidados das pessoas presas. Testemunhos de quem está dentro e de seus familiares indicam o frequente recurso a fármacos sedativos, antipsicóticos e anticonvulsivos sem uma conexão clara com a necessidade clínica dos próprios fármacos, mas mais claramente em coerência com a atitude repressiva do sistema prisional.
Grande parte dos estabelecimentos prisionais padece dos mesmos problemas: infraestruturas decadentes, alimentação degradante que promove a desnutrição e restrição de acesso a bens e produtos essenciais. A atividade laboral remunerada é parca e traduz-se, maioritariamente, na exploração e as ofertas formativas são poucas.
Na prisão as discriminações, violências e a exploração persistem e são exacerbadas remetendo as pessoas presas para a invisibilidade, o abandono e marginalização sociais.
As mulheres com familiares na prisão estão também sujeitas à exclusão e violência, pois são elas que cuidam de quem está “dentro”, suportando na família e nas comunidades as consequências económicas e sociais do encarceramento. As crianças com pai e/ou mãe em reclusão foram também alvo de violação dos seus direitos fundamentais, impedidas de estabelecer contacto com as/os suas/seus cuidadores. Existem milhares de crianças com pai e/ou mãe na prisão e esta é uma realidade silenciada e invisível.
O objetivo deste grupo é visibilizar a realidade obscurecida das prisões e pensar coletivamente possíveis ações de apoio para quem está dentro.
Todas as pessoas que queiram juntar-se ou dar o seu testemunho contra estes centros de extermínio serão bem vindas.
Não estamos todas, faltam as presas!
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