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Carta sobre “um absurdo (um de vários)…na prisão”

Oi, me chamo …….., e vim contar um absurdo (um de vários) que aconteceram comigo aqui na prisão. Sou Brasileira, tenho 47 anos e estou presa há 2 anos, com uma pena de 4 anos e ___ meses. Não tenho ajuda, nem visitas. Minha mãe me ajuda como pode, pois, as coisas não estão fáceis no Brasil. Tenho uma filha de 7 anos, que me faz muita falta… Aqui no E.P., a troca de roupa é de 3 em 3 meses, e a última foi em fevereiro, porém não consegui dar baixa (sair) as minhas roupas, pois cada vez complicam mais, e não posso receber roupas de verão, estou usando roupas de inverno e passando calor. Já fiz várias tentativas:

1°- Pedi para jogarem fora e não autorizaram;

2°- Pedi para doar e não autorizaram;

3°- Pedi para sair pela visita da …. (pelo ….), e não autorizaram pois ele não está inserido no meu quadro de visitas;

4°- Pedi para inserir o… no meu quadro de visitas, mas não autorizaram pois já visita…

5° – Pedi para sair por uma reclusa, que era da minha cela e foi embora, e também não autorizaram.

6°- Pedi para ir a minha mala, que está na chefia, autorizaram, porém a guarda… não me leva até lá. Eu e várias reclusas pedimos há quase dois meses, e só enrolam a gente, e nunca nos deixam ir a mala…

Ou seja, não nos dão hipótese! O que faremos? Isto é um absurdo, pois é meu direito, mas ninguém resolve nada. Peço que me ajudem, por favor, obrigada!

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Carta(s) de uma ala feminina de uma prisão

 

Olá,

[…] Aqui não nos deixam trazer nem um pão para a cela, se janta às 17h30. Nos fecham às 19h, vê lá que se janta às 17h30 e não nos deixam trazer um triste pãozinho, eu quase não como. Emagreci muito, isto é um inferno, mas pronto, assim é a vida. […]

01/2023

Ola C.,

Desejo que estejas bem.

Eu cá estou com a minha dor.
O dr.P , disse-me que fosse a falar com a psicóloga, mas eu não quero.
Aqui, temos um médico, que só vem quando ele quer, PASSA meses, sem VIR. Nós nos apontamo-nos e as poucas vezes que vem, não nos chama a todas, só está 20 minutos ou 30. Não nos faz observações como médico, quem vem dar-nos a medicação é uma enfermeira, e aqui há doenças Graves.
Nos Fecham às 19h. quando alguém está doente tocamos às portas [das celas], Demoram muito a socorrer, as pessoas, e ainda, ASSIM, Não há médicos nem enfermeira, “Algumas Guardas Fazem De médico”.
As Camaratas, são: De 5 pessoas, outra de 7, outra de 4 pessoas, e é pequena para tanta Gente, e ainda por cima estamos encurraladas, com as janelas [tapadas].
Taparam-nos As Grades com uma Rede com buraquinhos muito pequeninos. Não Entra AR, temos tipo uma persiana toda em chapa, E Não se vê NADA pra Fora, AXO que isto não está na lei, isto é uma tortura, sofremos de Ansiedade, porque não podemos respirar, e somos várias pessoas na mesma cela. Às Vezes dá-nos ataques De pânico, chamamos As Guardas, elas Vêm, mas ainda por cima Nos Gritam por que tocamos Às portas.
Mas não todas as (Guardas são Iguais.)
Algumas Guardas, quando vêm, pela manhã, os bons dias delas são A Gritar e nos poẽm Nervosas.
Isto é um Inferno, o que estamos a PASSAR.
Sem médicos, sem médico as 24 horas, Ele, só vem quando lhe apetece. Ainda Vêm tarde, e ainda por cima, Nos FALAM mal. Nós nos queixamos de dores nas costas, ou em qualquer sítio do corpo, e Ele não nos examina, só Nos manda, Nolotil, ou Ipobrofeno, e já está, e se temos uma doença GRAVE? Aqui Ficamos com a doença, até que se espalhe pelo o corPo. Só, se estamos já quase A morrer é que Nos Fazem caso.
E pronto e ASSIM sofremos Gritos, Aguentamos As Guardas, Que como Dizem Elas “Nos somos Guardas e é quando eu quero.”

02/2023

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“Viver todos os dias na humilhação que nós passamos é muito triste, para 1 ser humano”

Quarta feira 8 Março 2023

Hoje por volta das 17:30 da tarde eu P. saí da cela e estava à espera que começassem a chamar para receber os meus 2 vales de correio, esperei ao pé do gradão, passado por aí 10 minutos começaram a tal chamada. Primeiro chamaram o 1º piso e depois chamaram o 2º piso, e depois por fim nunca mais chamavam o 3º piso passava o tempo e nada, então eu decidi chegar perto da guarda G. e lhe perguntar D. G. não me sabe dizer nada sobre os vales? E logo de seguida começou aos berros comigo, e partiu para cima de mim para me tentar agredir, como se eu tivesse tentado faltar ao respeito e eu lhe disse: – você não pode gritar comigo assim, eu não sou nenhum animal nem sou sua filha – e continuou a tentar me agredir e se não fosse as outras reclusas a segurar a guarda ela tinha-me agredido, essa senhora não está preparada psicologicamente para estar a lidar com a população prisional. Tem um comportamento agressivo e já tem conflito com diversas reclusas e em mim causou um desconforto emocional e psicológico provocando medo ansiedade desconforto e trauma uma vez que já estou presa 24h por dia em condições precárias onde não temos água quente, as janelas estão partidas, há muita humidade, as torneiras quebradas, e uma alimentação totalmente fora da realidade do século XXI, ás vezes passamos semanas sem comer só sobrevivemos no pão e o pão que compramos com o dinheiro que a família pode nos enviar. Os preços na cantina são totalmente o dobro da rua, e há pessoas que sofrem torturas que não são permitidas por lei como estar no manco por muito tempo.

Não temos auxílio quando estamos doentes nos mandam tomar um chá e um banho quente porque alegam que não tem ordem para abrir as portas. Há sobrelotação, nos obrigam a ficar com 5 pessoas na cela onde não tem nem 5 metros quadrados.

Tem muita confusão, negócio e tráfico de drogas a céu aberto, relatórios montados e ainda a juíza está obrigando as reclusas a saírem sem condicional cumprindo até o final da pena. Existe trabalho escravo e muita humilhação e as reclusas aguentam porque precisam de 50€ ou 60€ [o que algmas conseguem ganhar mensalmente].

Onde espancam a reclusa doente que não tem família porque dá muito trabalho. A S. tem esquizofrenia, tem reclusas na cadeira de roda sem condições. Aqui tem uma ditadura camuflada, quem ousar falar é duramente castigado. Tem homofobia, racismo, xenofobia tudo, por parte, de quem trabalha no sistema guarda que fala para reclusa que está se cagando que ela aqui não passa de uma reclusa e que a guarda aqui sou eu. Depois você quer pedir uma transferência para outro EP e vem negado pois aqui existe um negócio para reter pessoas tanto estrangeiras como portuguesas para alimentar a máquina do Estado onde este ep está inaceitavel e ninguém fecha. Onde as guardas fazem o que querem e nem a diretora sabe, voltámos à era de Hitle[r].

Por Deus quando isto vai ter fim, não há um entidade para ver isto? Guardas que não respeita!

Esta prisão está violando todos os direitos humanos estamos num tremendo sequestro Estatal, sem direitos alguns, precárias negadas, condicional negada, castigos indevidos, pessoas com problemas mentais, pessoas mantidas altamente medicadas. Um psiquiatra que é autoritário que é favorável a castigos e receita medicamentos para manter as reclusas nos castigos.

É uma ditadura que não tem fim em pleno século XXI.

O sistema separa os casais lésbicos só por que não gosta de lhe ver juntos, ou porque não lhes dá a possibilidade de estarem juntos, privando o afeto entre as pessoas.

Há um nepotismo gigantesco neste ep.

E há um favoritismo de guarda para guardas e para algumas reclusas que jogam do lado do sistema.

No bar do EP muitas vezes não tem nada, nem copos para um simples café é uma vergonha não termos nada na cantina para podermos comprar, com o pouco que a familia, nos pode mandar.

No dia 12 eu e as minhas colegas estávamos no buraco que lhe dão o nome de cela, e fomos comer abriu-se o pão e lá dentro estava um cabelo enorme. E não podemos reclamar, porque já sabemos a resposta. Aqui é um autêntico cemitério dos vivos, só chegam pessoas com problemas com drogas, com problemas psiquiátricos, pessoas que não estão aptas, para o comprimento da pena é uma autentica vergonha estar presas porque cometemos 1 crime e em vez de melhorar só pioramos, porque aqui não há ressocialização alguma e onde os maiores criminosos se encontram nesta instituição. Não temos qualquer liberdade de expressão somos pequenas marionetas do sistema.

Não podemos usufruir dos nossos direitos nem da garantia quando vamos embora deste inferno.

Quinta-feira na hora da medicação estava uma reclusa a D. a tentar resolver um problema, que se passava com ela dentro da cela nº738 e se dirigiu às guardas [que] não resolveram nada, então ela disse que se não resolvessem ela não iria para a cela, então a D. G. disse-lhe: – então vamos ver isso quando o pavilhão estiver calmo. Passado um pouco foi agredida pelo corpo de guarda prisional ficou com o olho roxo e inchado, mandaram-na contra o gradão com toda a força. E essa mulher tem problemas de saúde. Onde está alguém para lhe ajudar? A sério já não estou aguentar mais estar aqui, estou num buraco tão escuro e não sei como consigo, sair dele.

Viver todos os dias na humilhação que nós passamos é muito triste, para 1 ser humano. Por agora não tenho mais nada a dizer.

Ass: ….

PS. Obrigado por me estar a querer ajudar. beijinhos

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Manifesto das Vozes de Dentro para o 8 de Março 2023

Sou mulher
Sou o começo
Sou a vida dentro da própria vida
E quero e prezo o respirar se não o tomo
arrancando as raízes profundas da marmeleira
Estou no início de toda a criação
Sou mãe, preta
Sou neta
Sou primeira e última
Sou mulher
ventos através dos mundos
escuto detrás das grades e muros
Sou mestiça, tenho brasão, moro na vila
Sou energia que passa entre as mãos
Sou a alegria de um continente e vale que obedece o sopro dos ventos
Sou o erro, o acerto inesperado
Sou a voz calada que fala as cordas do violino
Sou uma história contada em mil línguas distintas
Sou o dialeto que fala os anjos
Sou a tradução de um grito que vem do submundo
Sou a folha verde amadurecendo da fruta e a semente germinando
Sou toda a terra
o dia amanhecendo e morrendo no outro hemisfério
Sou dona do mundo, criado pelas minhas mãos e serei o próprio fim!

Texto escrito entregrades por mulheres sequestradas pelo estado português

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Carta de mulher presa sobre saúde na prisão

Hoje vim falar sobre a falta de atendimento médico no E.P.
Eu tenho um problema no coração além de ter nascido com uma doença autoimune. Não me sinto bem há meses. Emagreci muito, sinto falta de ar, aparecem e somem nódoas negras nas minhas pernas. Não consigo engordar de jeito nenhum.
Pedi para ir ao médico várias vezes e de nada adiantava. Até que um dia minha pressão desceu e colocaram sal embaixo da minha língua, senão em desmaiava. No dia seguinte, na hora do almoço, passei mal comendo e levaram-me à enfermeira e minha pressão estava alta. Me perguntou o que eu tenho, eu lhe expliquei e ela viu as nódoas e a minha magreza, disse que eu deveria ser vista por um médico urgentemente.
Só fui no médico dentro do EP após OITO dias, e o médico disse que deve ser algo no coração, mas que ele não tem meios de me ajudar, visto que nem a balança funcionava adequadamente. Fez um pedido para eu realizar análises no sangue e para eu ser atendida por um cardiologista, no SNS. Me receitou medicação para a circulação sanguínea e vitamina. Comecei a tomar, e as nódoas sumiram e me sinto mais forte.
Mas, foi preciso eu passar mal no refeitório na frente de todos para o E.P. tomar uma atitude.
Agora, a próxima batalha a ganhar será esperar que o E.P. me encaminhe para um cardiologista.
Se deixar, eles nos deixam a morrer aqui!