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Carta de mulher presa – Agosto de 2022

08-2022

L. nºx, EP X

Quero pedir desculpa se esta minha carta se encontra com erros ortográficos, uma vez que fiz os estudos em Espanha o que me referencia por não dominar a ortografia portuguesa 100%.

Tenho 31 anos de idade, vou fazer 32 anos, sou Portuguesa mas com 5 anos de idade fui viver para Espanha onde permaneci até aos meus 14 anos de idade. Até esta idade fui sempre educada pela minha mãe após a separação dos meus pais. Minha mãe sempre deu uma educação muito boa para mim. Frequentei escolas privadas onde concluí o 4º de E.S.O que aqui equivale ao 9ºano. Fazia muito desporto, competições e ginástica rítmica e depois ginástica acrobática artística, entre outras coisas.

Aos meus 11 anos de idade tive um acidente de aviação (um carro me atropelou) e estive 15 dias em coma, 24 pontos na cabeça (tiveram de rapar meu cabelo na altura muito comprido) mais 17 pontos no cotovelo esquerdo e mais 17 no joelho direito, o que me deixou de cadeira de rodas e depois andei de muletas até conseguir andar sozinha. Infelizmente fui privada de exercer o que tanto gostava que era a ginástica artística e essa situação toda tornou-me uma menina rebelde por achar que toda a gente tinha pena de mim, pois eu era muito boa no que fazia, tanto na ginástica como nas aulas.

Comecei a vacilar, a fumar cigarro, ter notas menos boas e a fugir de casa à noite para sair com os “amigos”.

Eu sabia que o meu pai que já faleceu, na altura era alcoólotra e que tinha tido mais 3 filhos e quando eu atingi os 14 anos entre as escapadelas que fazia apareci em coma alcoólico. Lembro de minha mãe me perguntar porque fiz isso e eu responder. Fiz para sentir o que o meu pai sinta que até se esquece de me ligar.

Após mais uns dias tivemos uma grande discussão e pedi para me trazerem para Portugal, e assim a minha mãe fez com muito custo.

Cheguei a Portugal, voltei para a casa onde tinha nascido com meus irmãos mais novos.

A princípio foi tudo lindo, eu não ia à escola, meu pai não se importava se eu bebesse ou fumasse, mas com o tempo começaram as desavenças com a minha madrasta. Pois na altura tinha ciúmes de mim porque eu passava mais tempo com o meu pai e chegou a insultar a minha mãe e aí foi a primeira vez que andei à porrada com alguém.

Para ela não me mandar para um colégio disse ao meu pai que ia sair de casa. E assim fiz, 6 meses em Portugal, não conhecia muita gente e só conhecia a terra onde eu nasci.

Tive de me virar, tinha dias que dormia em casa de amigos até um dia me ter perdido sem saber onde estava. Lembro-me como ontem, passei 3 dias sem comer nem tomar banho, até que um rapaz fez conversa comigo e eu desesperada, contei minha situação, ele disse que sabia de alguém que me podia ajudar e levou-me até essa pessoa, fui a casa dele onde tinha inúmeras mulheres a morar e me perguntavam se eu era virgem ao qual eu respondi que sim.

Depois de eu ter tomado banho, trocado de roupa e ter comido ele fez uma festa na casa onde havia muito álcool. Mas até hoje eu não sei o que tinha no copo porque apaguei e acordei numa cama com as manchas de sangue e a minha vagina a doer. Fui à casa de banho e quando urinei doía mais…

Eu não queria ficar lá, as mulheres se riam e me perguntavam se tinha gostado, eu comecei a chorar. Naquela casa tinha uma empregada que tinha acabado de entrar em casa, e assim que vi ela a entrar eu passei por cima dela e corri a descer as escadas do prédio.

Mas uma vez, não sabia onde estava, andei até chegar ao metro e fui até o X para ir ter com o meu pai. Cheguei lá e pedi dinheiro ao meu pai contendo as lágrimas, mas com medo de ir para um colégio, calei-me.

A partir daí comecei a frequentar, o Bairro Alto, onde pude começar a ganhar dinheiro vendendo droga, depois foi Chelas onde comecei a vender só para mim até ter conhecido o P. filho de um narcotraficante que foi meu companheiro até à sua morte.

Ano xxxx (rusga na casa onde vivia com meu namorado), a polícia entrou com os cães, as ruas cheias de carros patrulhas, revistaram, partiram e acharam droga, duas balanças automáticas, uma caçadeira de canos serrados, dinheiro e um fio de ouro com uma lágrima…

Fui ao juiz e fiquei com termo de identidade e residência, ainda com 19 anos entrei pela primeira vez na cadeia de X para cumprir uma pena de 9 anos e 9 meses.

Os dois primeiros anos levava a cadeia a encher a cabeça todos os dias com ganza, até por vontade própria decidir mudar o rumo da minha vida e inscrevi-me no curso de cozinha com equivalência ao 9ºano português. Após ter concluído o curso fui trabalhar para a cozinha. A minha primeira precária foi me dada aos dois terços da pena, após ter regressado fui à juíza e deu-me um corte de 1 ano. Quando fui avaliada pela juíza eu tinha um relatório bom onde sempre trabalhei conciliando com a escola que frequentei até meio do 11ºano.

Depois pedi para me mudarem de trabalho para a creche por ser um trabalho mais calmo e eu precisava por faltar pouco para sair.

Nesses anos todos, tive sempre visitas de familiares sogro (pai do meu ex-namorado), tio, mãe, tia, primos e amigos e cunhados.

Havia muita coisa cá a acontecer, pessoas novas a morrer por excesso de medicação, pessoas consumidoras que continuavam a consumir por não ter reabilitação, muita gente que não tinha nada e que nós reclusas é que ajudávamos elas, reclusas não aptas psicologicamente a suicidarem-se, essa é das minhas piores lembranças. Lembro de uma rapariga de 19 anos que se suicidou e foi levada arrastada pelo chão num saco preto.

Vi pessoas a tentarem reivindicar os seus direitos e não deixavam e davam porrada nelas algemadas. Desnudamentos após a visita onde me obrigavam a apoiar uma perna na cadeira e a fazer agachamentos e como eu estava com tampão pediram para tirar e voltar a fazer.

Sei de uma ex-colega minha que fizeram desnudamento com luvas para enfiar os dedos no anus e na vagina enquanto ela tossia.

Sei de casos de mulheres que engravidaram de chefes de pavilhão e foram obrigadas a abortar.

Eu própria pedi para sair da cozinha porque o cozinheiro que lá trabalhava me quis obrigar a ter relações sexuais com ele. Após ter acontecido isto, informei o gerente e as guardas e a única coisa que fizeram foi pedir-lhe para se manter distante de mim, mas como fez comigo, fez com muitas outras.

Quando fui trabalhar para a creche em xxxx, fiquei chocada porque não tinha água quente para limpar os meninos. E quando eles se portavam de forma “errada” eram ameaçados a tomar banho de água fria ou obrigados a entrar num quarto completamente escuro.

Eu também tive que fazer um aborto após ter engravidado numa precária, e eu queria aquele filho ou filha, mas se tivesse seria obrigada a cumprir pena até ao fim e tiravam-me as precárias.

Enfim a batalha acabou em xxxx, quando me deram liberdade condicional.

Fui viver com a minha tia e os meus primos e rapidamente arranjei trabalho num estabelecimento de restauração, passado um tempo aluguei um quarto e fechei o contrato para trabalhar como doméstica, foi aí que comecei a namorar com um rapaz que hoje em dia é um grande amigo meu.

Um dia a passearmos fomos à antiga casa onde morava. Por curiosidade bati à porta e quando abriram vi o irmão que eu deixei pequenino já feito um homem e muito lindo, falámos um pouco mas vi que ele tinha feito direta então dei-lhe o meu número e fui embora. No dia a seguir liga-me a minha irmã e marcámos um encontro, foi tão bom…ela já era mãe e eu tia!! Ainda estive também com o mais novo, e com todos diversas vezes.

A minha irmã trabalhava no xxx e disse-me que precisavam de copeiras e fui à entrevista e fiquei. Foi um bom trabalho dentro dos possíveis, estava perto da minha irmã. Mas cometi um grande erro, eu estava chateada com o meu namorado e num dia de folga envolvi-me com quem posteriormente viria a ser o meu companheiro, não usei camisinha e ele não me disse e fiquei infetada (HIV). A partir daí não consegui levar uma vida resolvida para a frente. Com este episódio, demiti-me do respetivo emprego, afastei-me da família, não tendo coragem de informá-los do sucedido, dado que me levou a consumir e a ficar dependente de estupefacientes e ter cometido mais um crime e fiquei com uma depressão agravada.

Como referi antes, o apoio familiar esteve presente e foi um bem essencial para a minha reinserção, mas devido aos anos anos todos que estive detida (7 anos e meio) senti-me completamente perdida e sem reconhecer a sociedade atual.

Não foi nada do que aconteceu após a minha libertação que acontecesse. Pois tinha planos, muitos planos e falharam-me as ferramentas. Sempre tive desejo de poder ajudar e dar a voz a pessoas que se encontram detidas, por eu ter passado pelo mesmo e sabendo que nós não temos voz.

Depois de ter passado toda a fase de depressão e consumos fiquei grávida. Procurei ajuda em vários centros mas foi em vão derivado à forte adição aos consumos, principalmente do meu companheiro.

Fui para B e depois para C para poder estar junto ao meu companheiro. O centro onde estávamos era só para dormir, pois de dia eras obrigado a sair de lá e fazer por ti. Claro que este tipo de programa não impediu que parasse de consumir, mas sempre fiz a medicação para a minha infeção (HIV) pois se não o bebé corria o risco de nascer infetado.

Entretanto fui a tribunal por ter sido apanhada com material roubado, e julgaram-me a uma pena de 1 ano e 2 meses por receptação, mas o grande motivo de ter sido condenada a uma pena efetiva, foi por estar em liberdade condicional. A advogada recorreu da pena mas o tribunal não reduziu a medida de caução.

Fiquei foragida até nascer o meu filho, pela graça de Deus correu tudo bem e aí eu percebi quando olhei para ele que tinha de mudar a minha vida para ele não passar pelo que eu passei.

Estava tão desesperada que andava à procura de documentos falsos para sair do país. Mas com o meu bebé de 3 meses de idade, eu fui identificada pela polícia já com um mandato de captura.

Vim para a cadeia a cumprir uma pena efetiva, no dia que por livre e espontânea vontade comecei a fazer desmame de heroina e metadona a frio. O que me levou a fazê-lo foi o meu filho que ficou com o meu companheiro que posteriormente foi entregue à minha família. Aqui vos deixo uma música com a qual me identifico.

Allen Hallowen

Esta é a história de um velho “gi”

you know?

No meu bairro, no teu bairro ou num bairro por aí

De Odivelas até Paris, e nós K (criminal)

Nigga me teu um fato e sapato

para falar com o juiz

Pagaram o advogado

mas caro do País.

O juiz deu-lhe um saco de rebuçados envenenados a cada “gi”

eu comi 10 rebuçados e um dia eu saí

velho de mais para voltar à street

cansado e sem dinheiro para a minha raiz

o tempo que me resta vou viver em “peace”

tirar os meus putos da “police”

às vezes eu digo aos miúdos aquilo tudo que eu vi e sofri

mas ninguém presta a atenção, ninguém ouve irmão,

se tu sofreste eles sofreram muito mais “You know”

ontem um amigo me disse que viu meu Benjamim

fumando andando na street, odiado pelos “gis”.

Obrigado amigo! Bons olhos virão meu filho

Jeová não deixes que o meu menino siga o nosso caminho.

Putos crescem na ilusão que ao ser bandidos

grão a grão os processos vão enchendo o livro

e só percebem quantos são quando são detidos

os pombos a voar para ti como se fosses milho.

Eu sei meu filho, eu sei o que tu queres fazer

aquilo que tu queres fazer é aquilo que estou a tentar esquecer

banhada estás a planear já muitas tentaram dar

mas nada te faz parar, se calhar pode resultar.

Quem não arrisca não petisca

Io! É verdade

Mas não há maior petisco do que a liberdade

Hoje envio estas folhas com parte da minha história e se assim o desejarem eu continuarei a minha história.

Só quero que saibam que eu nesta minha 2ª reclusão estou de mãos e pés atados. Não tenho visitas, a pouca roupa que tenho, alguma é dada pela cadeia e outras por colegas, não vejo o meu filho. Não tenho uma casa fixa para ficar e preciso muito desse suporte pois tenho os meus objetivos traçados. Construí um plano e acima de tudo tenho uma mentalidade vencedora.

Eu acredito que com processo extraordinário, consigo atingir resultados extraordinários, deixando para trás o trauma destes anos de reclusão.

Quero encontrar a melhor versão de mim num método de alta performance que me vai permitir na área que eu escolher (sociologia-política).

Todos nós temos um grande potencial por explorar. Tenho um grande sonho dentro da área que quero seguir.

Tracei o meu objetivo para investir 100% na aprendizagem e no conhecimento para poder ser excelente.

Por aqui me despeço até um dia próximo espero eu.

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Carta de uma mulher presa em Portugal

Agosto, 2022

Assunto: Abuso de autoridade, homofobia e negligência no trabalho

Eu venho por este meio comunicar que no dia xx/xx/2022 às 17:33, pedi à chefe de turno para fazer uma ligação para minha mãe no Brasil junto à minha namorada no hall do 1° piso no telefone das escadas e ela permitiu, então tivemos de aguardar 2 reclusas que estavam à frente para ligar, e assim que chegou à nossa vez liguei para minha mãe e ela ao atender, logo já aparece a dona H. ao pé do telefone a gritar sem nenhum pingo de educação a mandar-nos para nosso piso impedindo-nos de fazer a ligação, sendo que a minha mãe apenas queria falar com a sua nora.

Fiquei enervada mas fui para a meu piso calada, mas também muito chateada, pois se eu não poderia fazer a ligação porquê que ela havia permitiu? Pura negligência de trabalho. E justamente na hora em que minha mãe atende o telefone, a dona H. percebe-se, e começa a dar shows, berros e a abusar da sua autoridade, pois ali não houve se quer um pingo de respeito e capacidade para exercer o seu cargo, e cá já há muitas reclusas farta dela. A minha família não tem nada a ver com o stress de trabalho de guarda, e ATENÇÃO reclusa sou eu, não minha mãe, que com toda a gritaria que ela fez acabou por deixar minha mãe preocupada e aflita sem saber o que se passava pois tive de desligar o telefone rapidamente.

Em seguida quando eu já estava no meu piso, a dona H. com uma atitude infantil e precária me mandou bocas  e à minha namorada e ela permaneceu calada para não haver conflitos, depois disse também que se ela era minha mulher que eu pegasse nas coisas dela e a levasse daqui, mas como? Se estamos detidas. Já estava muito enervada, fui para a minha cela e depois voltei para retornar a ligação para minha mãe, e estavam muitas guardas no gradão inclusivé o comissário a ouvir reclamações de outra reclusa, e assim aproveitei para expor e falar o que estava a sentir, que toda a situação que eu havia acabado de passar era abuso de autoridade e um familiar nosso não tem nada a ver, porém com toda a situação fiquei muito exaltada e com isso mandaram-me ao gabinete, junto a patrulha de guardas a me acompanhar, onde fecharam a porta, e em seguido o chefe P. empurra-me e pega-me pelo braço com muita força, e eu disse: Agora vais bater em mulher? Covarde, eu ainda não esquecei do ato de xenofobia que fizeste comigo no caminho da clínica, experimente tocar-me um dedo que lhe meto um processo, “Claro pois ele outro dia foi super machista, arrogante e xenófobo em uma conversa a caminho para a clínica onde ele corrigia a minha gramática Brasileira sendo que eu fiz ensino superior e a gramática Portuguesa é complemente diferente da nossa Brasileira, nota-se ao conjugar verbos, ou seja nenhuma e nem a outra errada, Portugal colonizou o Brasil, mas lá já havia índios a morar quando chegaram. Estou exausta de ser tratada até pela enfermeira que também já fiz queixa por ser xenófoba com nós Brasileiros, cá dentro há muitas injustiças, xenofobia, abuso de autoridade, negligência de trabalho e homofobia que é CRIME!

O comissário atento ao conflito que estava acontecer, levou-me para outra parte de escritório, onde foi muito educado, me ouviu, falou e me acalmou, pois nesse momento mostrou-se um homem humano, com total capacidade e experiência de trabalho cujo o cargo que tem, e acabou toda a confusão.

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ENTRARAM VIVOS E SAÍRAM MORTOS! QUEREMOS JUSTIÇA PARA DANIEL, DANIJOY, MIGUEL E TODAS AS VÍTIMAS DO ESTADO PORTUGUÊS

Vozes de Dentro continua a acompanhar a luta das pessoas presas, das mães e das famílias de quem morreu nas prisões do estado. No dia 17 de Setembro, às 16h no Rossio, juntamo-nos à manifestação convocada pelas famílias de Daniel, Danijoy e Miguel.
Contra todas as prisões!
Não estamos todas, faltam as presas!
ENTRARAM VIVOS E SAÍRAM MORTOS!
QUEREMOS JUSTIÇA PARA DANIEL, DANIJOY, MIGUEL E TODAS AS VÍTIMAS DO ESTADO PORTUGUÊS
Um ano de luto, sem Justiça. As famílias de Daniel Rodrigues e Danijoy Pontes – que morreram no dia 15 de setembro de 2021, no Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) – ainda hoje não têm respostas concretas sobre a causa de morte dos dois jovens. A estas, soma-se a família de Miguel Cesteiro, encontrado morto no Estabelecimento Prisional de Alcoentre, a 10 de janeiro de 2022. Ao contrário do que diz a lei, perante estas três mortes, todas em circunstâncias suspeitas, a Polícia Judiciária não foi chamada ao local. Além disso, a demora no acesso aos corpos das vítimas e aos relatórios das autópsias por parte das famílias são sintomáticos da invisibilização produzida pelo estado que condena ao silêncio e ao esquecimento as violações nas cadeias portuguesas. Como é possível que a DGRSP se tenha apressado a arquivar tão rapidamente estes casos? Porque não respondem aos pedidos feitos pelos advogados? Onde estão os relatórios das autópsias de Daniel e Miguel?
 
De facto, as instituições de justiça portuguesas ignoram o sofrimento e a angústia das mães, filhos e filhas das vítimas do estado, parecendo não se preocupar com o facto de, em Portugal, o tempo médio de duração da pena de prisão ser o triplo da média europeia, e de, nas últimas décadas, Portugal ser dos países onde mais se morre nas prisões e o terceiro com maior taxa de suicídio. Acrescem ainda denúncias sistemáticas de situações de tratamento desumano e tortura nas prisões. Porque esteve Danijoy na solitária nos dias que antecederam a sua morte e porque continuam a existir estes espaços? Porque não puderam as mães visitar os seus filhos durante tanto tempo?
 
Tudo isto revela como a punição (das mais diversas formas), o castigo e a violência institucional orientam as práticas quotidianas nas prisões. A isto acrescenta-se uma tendência geral de controlo e repressão com base na sobremedicalização, aplicada com a cumplicidade dos profissionais de saúde que trabalham nas prisões, através da prescrição generalizada de um cocktail de fármacos perigosos para a vida das pessoas, como antipsicóticos, sedativos e metadona. Todas estas drogas foram reveladas nas autópsias de Danijoy e Daniel. Porque tomavam Daniel e Danijoy certos medicamentos mesmo que não sofressem de doenças que justificassem a sua prescrição?
 
Além do mais, o Código da Execução das Penas e Medidas Privativas da Liberdade afirma que a pessoa reclusa mantém a titularidade dos direitos fundamentais, de acesso a cuidados de saúde em ambulatório e internamento hospitalar em condições idênticas às que são asseguradas em liberdade. Contudo, com base na experiência de grupos e coletivos de apoio, nos relatos de pessoas presas e das suas famílias e em relatórios de organismos internacionais, é evidente uma constante negligência e falta de acesso à prevenção, assistência médica e terapias. Mas o estado português segue indiferente ao apelo das famílias e da sociedade organizada por justiça e verdade. Porque morreram Daniel, Danijoy e Miguel e até quando continuarão a morrer pessoas sob tutela estatal?
 
Os relatórios internacionais confirmam que há perigo de vida nas prisões e que a política de segurança pública e justiça em Portugal produz terror, dor e morte contra pessoas negras, ciganas e pobres. Se assim não o fosse, como explicar a razão pela qual Portugal apresenta taxas de encarceramento bem acima da média? O mesmo em relação à taxa de encarceramento de mulheres e de pessoas estrangeiras, à percentagem de pessoas detidas enquanto aguardam julgamento ou à sobrelotação nas prisões? Exigimos respostas céleres!
 
A indiferença, o racismo institucional e a negligência estatal em relação às mortes de Daniel, Danijoy, Miguel e tantas outras, demonstra-nos que o estado impossibilita, dificulta e promove obstáculos à luta das famílias por Verdade e Justiça. Mas as mães e os familiares das vítimas do estado resistem! Seguem na luta!
 
Contra a indiferença, pela memória e por igualdade convocamos todes a estarem com estas famílias, dia 17 de setembro, às 16h30, no Rossio (Lisboa), numa manifestação para exigir justiça por Daniel, Danijoy, Miguel e todas as vítimas do sistema prisional.

 

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Carta Coletiva de presas numa prisão feminina em Portugal

07-07-2022

Aos corações que se lembram que as prisões existem: vocês.

As reclusas que se não tentarem mudar o hoje, os amanhas serão sempre iguais a ontem.
As reclusas do E.P. vêm por este meio apelar a vossa atenção para a situação presente, que se vive neste estabelecimento prisional feminino.
Um atentado aos nossos mais elementares direitos, previstos na constituição portuguesa e nos direitos humanos internacionais. Cuidados de saúde. Consultas de clínica geral esperas de semanas pedidos incontáveis, com resposta zero.
Dentista, inúmeros casos de espera, acima dos três meses abcessos tratados com Ibuprofeno (quando há em stock) ou Paracetamol. Consultas de especialidade, com espera acima dos seis meses e em alguns casos, anos.
Reclusas devolvidas à liberdade sem nunca, terem sido diagnosticadas e tratadas.
A medicação prescrita, por vezes vem errada para os pavilhões (dezenas de vezes) e quando por nós é exigida a correção, ouvimos “tome se quiser”.
Nota: medicação de psiquiatra, o que agrava as consequências da toma indevida por outras reclusas, que por não terem formação médica, nem sabem os riscos inerentes a tamanha negligência,
As refeições são pobres de ingredientes a uma alimentação equilibrada, nomeadamente, durante semanas, meses, é sempre igual.
Legumes, praticamente não existem.
Arroz e massa alimentícia são fornecidas diariamente, também a batata. É um sonho, esporadicamente um vegetal, espreita no prato, pelo cantinho do nosso imaginário.
Carne e peixe, em quantidades equivalentes à refeição de uma criança em idade pré-escolar na maioria das vezes, refeições mal cozinhadas, cruas e isentas de tempero.
As refeições vegetarianas são surreais, grão, arroz, feijão e massa e repete-se o menu, na refeição seguinte, na semana seguinte e no mês seguinte.
Inúmeros casos de intolerâncias alimentares, tantos que o serviço de enfermagem, traz diariamente para os pavilhões, anti-histamínicos que são distribuídos voluntariamente, sem prescrição médica, a quem se queixa de erupções cutâneas ou distúrbios intestinais.
A sopa, primeiro alimento da tabela alimentar ou se reduz a uma solução aquosa, ou a uma massa com a consistência que normalmente se associa a um pudim.
Sem sabor e mais uma vez, ausência de legumes. Os reforços que nos são fornecidos às 19h horas, após o termino de jantar, são constituídos por pão, doce na maioria das vezes, esporadicamente um pão com queijo, ou manteiga e um dia por semana com fiambre, esse intragável, adulterado pelo calor, com cheiro nauseabundo e coloração esverdeada, pelo tempo entre a confeção e a entrega.
Os contactos com o exterior são caóticos. Duas cabinas de telefone por piso e duas no recreio para cerca 180 reclusas.
O ruído inerente à dimensão do espaço e quantidade de reclusas, é gigantesco o que como é óbvio é impossível isentar o ruído ou fazer-nos ouvir nos parcos 5 minutos diários, além do fator privacidade.
A correspondência é revista pelo corpo de guardas, envelopes e selos que nos enviam são apreendidos porque a cantina os vende. Surreal é a cantina vender envelopes brancos [correio verde], mas selos não. Um negócio implantado.
Na higienizarão das celas é-nos fornecido cinco litros de lixívia, diluídos em agua por cela com 4 mulheres cada. Quatro rolos de papel higiénico por mês. Existem reclusas que não têm qualquer apoio familiar a nível financeiro, e atividade laboral no E.P. é diminuta, e só uma percentagem muito baixa o consegue, o que torna a situação degradante para estas reclusas. Quatro pedaços minúsculos de sabão azul e branco, destinados a lavagem de roupa e para alguns até para a sua higiene pessoal.
A cantina do E.P. tem bens à venda, mas por rotina os produtos mais acessíveis, não chegam para todas as reclusas.
Bens esgotados durante meses (ex. aveia) não existe há meses, um alimento que utilizamos para suprimir a carência de outros.
As condições de habitabilidade são precárias, celas com esgotos entupidos, janelas partidas e outras inexistentes.
Cobertores na quantia de quatro em más condições, que durante os meses de inverno não aquecem do frio, pela falta de janelas com vidros.
E por fim o acesso aos serviços de educação, chefia e Diretoria do E.P.
É-nos fornecido um cartão P.T. onde por pressuposto deveriam ser inseridos os números de telefone de familiares: mas para tal é exigido um comprovativo enviado para um email do E.P., com o n° e o nome do utilizador.
Inúmeros emails são enviados, e por vezes esperamos meses até os números serem inseridos, privando-nos do contacto com a família.
Quando pedimos esclarecimento aos serviços de educação na maioria das vezes, nem resposta obtemos.
Existem reclusas que não sabem o nome da educadora/e que lhe foi atribuído, basicamente porque não a conhecem.
Só pudemos fazer um pedido por semana para os serviços pretendidos e assim se arrasta por meses a solução dos problemas de quem se encontra impotente para se fazer ouvir.
Regime de visitas e bens permitidos entrar no E.P.:
1 kg de bens alimentares por visita, mas o critério dos produtos não é igual para o corpo da guardas na portaria.
Existe uma tabela de bens permitidos, mas o critério é deixado ao grau de humor de quem fez a revista aos sacos. Produtos que entram numa visita, na próxima não podem entrar. Pura utopia a lista afixada.
Encomendas são permitidas se devidamente autorizadas, mas é recorrente, puro e simplesmente se evaporem dentro do E.P.
Transferências bancarias que levam meses a entrar na conta da reclusa, e outras que nunca entram. Erros básicos de valores inseridos na conta de outras reclusas, e jamais resolvidos. Cartas dirigidas ao Sr. comissario e Sra. Directora, sem resposta.
Correspondência para estâncias superiores violada e retida no E.P. etc. etc.
Todos os factos expostos são rigorosamente verdade sem exageros ou ficção.
Estamos privadas da liberdade à ordem dos tribunais competentes, a cumprir as penas que nos foram impostas, mas aqui a sensação é de um segundo julgamento e um duplo castigo, é unânime, questionar-mo-nos se a reinserção social de que tanto ouvimos falar em debates políticos e na comunicação social é uma mera fantochada, onde quem mexe as cordas do nosso futuro, manipula a seu belo prazer o nosso destino.
Sentimentos ambíguos contra um sistema que propõe o travão, a quem viveu à margem da lei, mas não cria condições para tal.
O estigma da prisão, está e vai connosco na revolta interior de não passarmos de meros números.

Atentamente

As reclusas do pavilhão x.

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Cartas Insubmissas – Zine I das Vozes de Dentro

CARTAS INSUBMISSAS
editada pelo coletivo Vozes de Dentro

2022

“Não me sinto nem um pouco preparada para retornar para a vida lá fora, o psicológico totalmente despreparada, muito tempo vivendo dentro deste galinheiro onde não passamos de galinhas que somos alimentadas, dopadas e trancadas nos pardieiros novamente.”

Cartas escritas por mulheres presas, que dão voz a todas as pessoas que sofrem a tortura quotidiana da privação de liberdade.

5 euros

Se estiveres interessade em contribuir* para o coletivo adquirindo uma zine, enviamos via CTT e a versão web podes aceder aqui: https://cryptpad.fr/file/#/2/file/f4iTLCCzcpMJGSs8yR0F59TM/

contacta-nos: vozesdedentro@riseup.net

Também podes adquirir diretamente na Livraria das Insurgentes em Lisboa: @livrariainsurgente

*as contribuições angariadas são para apoio direto de presos/as.